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Erivan Lima divide amor por Raul Seixas e Ceará-Mirim

Publicada em 06/08/18 as 09:39h por Tribuna do Norte - 63 visualizações


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Em agosto de 1990, na pacata Ceará-Mirim, em meio uma população que só queria saber de lambada e brega, o jovem Erivan Lima foi incentivado pelos amigos a fazer uma festa de rock. Não qualquer festa, mas um tributo àquele que era seu grande ídolo, Raul Seixas, que completava um ano de morto. Mesmo sem muito entusiasmo, o maluco beleza ceará-mirinense foi à frente com o projeto. Ocupou o Centro Esportivo e Cultural do município com uma exposição do acervo que tinha sobre o cantor de “Ouro de Tolo” e tacou as músicas do Raul pra tocar nas caixas de som.

Para surpresa de Erivan, 300 roqueiros apareceram no local deixando a vizinhança assombrada com tamanha aglomeração de camisas pretas. Seria o princípio de uma sociedade alternativa em Ceará-Mirim? Quem dera. Mas não, aquele encontro foi apenas o marco inicial de uma tradição que até então jamais foi quebrada na cidade: todo agosto tem Tributo a Raul Seixas.

No próximo dia 18, o Tributo chega a sua 29ª edição mais uma vez com perspectiva de atrair em romaria milhares de cowboys fora-da-lei do RN e de outros estados. Se antes a população da cidade torcia o nariz para o evento – que se tornou uma referência nacional no tocante à homenagens a Raul Seixas –, hoje a relação é agradável. Desde 2012 a festa está incluída no calendário oficial do município e movimenta cada vez mais o comércio local, lotando pousadas, bares, restaurantes e gerando renda para ambulantes.

Nascido e criado em Ceará-Mirim, onde vive até hoje – depois de ter morado uma curta temporada em Natal –, Erivan “Seixas” Lima é tão fã de Raul quanto da própria cidade. Nesta entrevista para o Minha Área, ele fala do seu amor pelo município, lembrando histórias vividas na “Terra dos Verdes Canaviais”, como o lugar também é conhecido.

Claro que nem tudo é só amor. Erivan está preocupado com a insegurança que avança na cidade e do pouco empenho do poder público em valorizar a cultura local. Mas, embora confesse abestalhado que está decepcionado, o cantor e produtor cultural garante que não arreda o pé do lugar de jeito nenhum. Até porque, ele acredita que nem tudo está perdido. Pois com fé em deus e fé na vida, sendo sincero e desejando profundo, qualquer ceará-mirinense é capaz de sacudir o mundo. E não precisa ter nascido há dez mil anos atrás para saber disso.

Os anos 70 no Vale

Tive uma infância perfeita na cidade. Nos anos 70 Ceará-Mirim era muito tranquila. Os engenhos ainda não estavam em ruínas como está hoje. A gente brincava de tudo e podia andar à vontade pelas ruas. Fiz o que toda criança da época fazia. E já gostava de música. Ouvia muito rádio. Meu irmão mais velho que me mostrava as coisas. Brega, Jovem Guarda, Raul, ele botava de tudo pra eu ouvir.

Emprego numa loja de discos

Em 1985 trabalhei na Waldeck Som, uma das duas lojas de discos de Ceará-Mirim. Era muito frequentada. Fiquei lá alguns anos. Eu já gostava de música, colecionava as coisas do Raul, mas foi na loja de disco que aprendi as coisas de verdade. O Waldeck conversava bastante comigo sobre as letras das músicas, contava histórias dos artistas. Foi uma experiência importantíssima pra mim. 

Fã nº1 

Quando criança gostava do Raul mas não era fã. Só em 1981 que passei a gostar de verdade. Vi uma apresentação dele no programa do Chacrinha. Ele cantou “Metamorfose Ambulante”. A música e o jeito autêntico dele me chamou muita atenção. Virei fã ali e comecei a acompanhar tudo que era publicado sobre ele. 

Vizinho da ex-esposa de Raul

Mais velho descobri uma história que até hoje pesquiso pra confirmar a veracidade. A primeira esposa do Raul, a americana Edith Nadine Wisner, chegou a morar em Ceará-Mirim na década de 70. Já me mostraram foto dela na cidade. Uma senhora daqui disse que lembra dela, contou que ela inclusive morou pertinho de casa. Éramos quase vizinhos. Tenho um conhecido, o Chico Torquato, que paquerou ela. Como é um sobrenome diferente, a pessoas não se esqueceram.

O show do ídolo em Natal

Em 1983 eu estava servindo o Exército. Lembro de ouvir no rádio a música “Coração Noturno” anunciando o lançamento do novo disco e show do Raul. Na hora pedi para o sargento me liberar pra ir ao show no Palácio dos Esportes. O sargento me chamou de maconheiro, disse que em show de rock só dava vagabundo, mas me liberou. Foi um show curto. O Raul atrasou pra chegar, como de costume, não terminou de cantar a última música, “Sociedade Alternativa”, a galera ficou puta, mas foi tudo emocionante pra mim. Eu tinha 18 anos, cabeça raspada do exército, estava vendo o Raul, cara! Lembro de todos os detalhes desse show até hoje. A única coisa que lamento é de não ter ido falar com ele.

O 1º Tributo a Raul

A ideia do Tributo começou de uma brincadeira entre amigos. Eu estava com Giancarlo Vieira, Eliel Silva, João Palhano e  Ionaldo Oliveira. O Eliel é fã do Roberto Carlos. Botou pilha para eu juntar meu acervo e montar uma exposição. Eu tinha muita coisa sobre o Raul. Ia nos sebos, catava tudo que é livro, revista. Encontrava raridades. Deixava de comprar roupa pra comprar disco. Mas não me empolguei muito com a ideia da homenagem. Ceará-Mirim não era uma terra de rock 'n roll. O que predominava na época era lambada e brega. Mas tudo bem, montamos a exposição no Centro Esportivo Cultural e a recepção foi muito boa. Apareceram 300 pessoas. A partir dali abrimos as portas da cidade para o rock.

Erivan, o capitalista!

Da 1ª edição até a 6ª, eu não cobrei ingresso. Na época eu trabalhava na Cosern, botava a grana do meu bolso no evento. Mas precisei cobrar a entrada depois. Não só pelo custo, mas porque começou a aparecer malucos que não eram beleza. E claro, apareceu a galera pra reclamar. Botei o ingresso com preço lá embaixo. Mas não teve jeito. Fui tachado de capitalista.

Ceará-Mirim abraça os malucos belezas

Antes o Tributo era muito discriminado. Existia a imagem de que o evento só atraia maconheiro. Agora é bem diferente. Gente com preconceito ainda existe, e é algo que existe em todo lugar. Mas a cidade hoje abraça o Tributo. Cara, sou chamado para conversar com estudantes sobre o Raul em colégio de freira! Também recebo alunos em casa que estão fazendo trabalho escolar. Ano passado montaram uma exposição na Biblioteca Municipal com meu acervo. Me tornei uma figura conhecida na cidade. Mesmo com o meu jeitão simples, sou bem tratado em todo lugar aqui.

A cidade dos tributos 

O Tributo a Raul Seixas se tornou uma marca de Ceará-Mirim. As pessoas houvem falar da cidade por causa do evento. A festa atrai gente de outros estados. O pessoal chega de trem, faz esquenta no Mercado, dá um giro nos engenhos. Esse movimento é bacana. E o evento incentivou outra coisa legal e que gera renda: hoje somos a cidade dos tributos! Cara, vem gente de todo RN para tributos a Elvis Presley, Roberto Carlos, Beatles, Bob Marley, Legião Urbana e Engenheiros do Hawai.

Um destino destino cultural

Ceará-Mirim não tem estrutura turística para receber muita gente. É uma pena. A quantidade de pessoas que vem de fora e não encontra onde ficar é imensa. Acabam tendo que se virar direto com moradores, alugando casa e até granja. A cidade tem um grande potencial cultural. Temos figuras históricas importantes, o conjunto de engenhos, um patrimônio arquitetônico bonito, como a Igreja, o Mercado, a Biblioteca, a Prefeitura, a rua da cruz, a maria fumaça da usina. Toda essa história é desperdiçada turisticamente porque o Poder Público não investe. 

Não saio daqui!

É triste ver nosso patrimônio histórico caindo em ruínas e ver a violência crescer nas ruas, mas apesar disso Ceará-Mirim é um bom lugar pra se morar. Gosto demais daqui. É uma cidade bonita. O Vale tem uma vista encantadora. Vai ser difícil eu sair daqui.






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